
Não penses que é fácil para mim te afastar, te ignorar, te ser indiferente. Na verdade, em algumas ocasiões, é incontrolável esse meu agir, e em outras, é proposital. Não. Não é simples fingir que não te preciso, que não te gosto, que não quero a tua ajuda. É que não sei pedir, e quando o faço, faço-o de maneira imprópria, incompleta, não convencional. É extremamente complicado controlar esse desejo que me faz fazer tudo a um só tempo, de falar todas as palavras de uma só vez, como se não falá-las ocasionasse perdê-las para sempre.Mas como controlar meus pensamentos, que vão tão rápido de um ponto a outro, que não consigo transformá-los em palavras, ou quando o faço, é um início de assunto sem fim. É muito penoso para mim, lutar contra essa força que me impulsiona a falar, a fazer, a correr. É como se falando, fazendo, correndo, eu pudesse extravasar esse meu mundo que é tão cheio de tudo, que a mim mesmo me basta, e que te parece vazio de vida, de nós, de você. Engana-se quem acredita que eu quero estar só. Na realidade, tanto a solidão quanto a multidão, me assustam. O que ocorre é que quando eu estou de um lado, tu estás do lado oposto, sufocando-me com tuas intermináveis perguntas. Por que não me ajudas calando-te. Ou não me ouves sem nada indagar? Não percebes que eu preciso de tempo para equacionar o meu tempo? E de controle de espaço, para ordenar minhas ações? Deixe-me falar quando tiver vontade e, apenas estejas aqui, para ouvir quando eu necessitar falar. Se grito, te irrito; se não falo, te incomodo. Se me ponho a correr, agitando-me em minha alegria, te aborreces; se me aquieto, fechando-me em mim mesmo, te angustias.Não. Não quero que tu saias de perto de mim, quero que tu estejas comigo no mesmo girar da roda gigante, na mesma corrida da montanha russa. Quero que quando eu estiver lá embaixo, segures na minha mão, porque mesmo que eu não olhe para você, saberei que estas ali; e quando eu estiver lá em cima, quero que o teu braço esteja apoiado no meu ombro (não com muita força) para que eu, mesmo olhando para o outro lado, ou para o horizonte, esteja convicto da tua presença confortadora.Sim, é disso que eu preciso: que você me conforte com o teu olhar, com o teu sorrir, com o teu agir, com o teu cuidar, com o teu abraçar, e com o teu falar (não muito rápido, nem muito alto). Por favor, não me entendas mal, eu gosto de ouvir a tua voz, porém não gosto, às vezes, de como você fala. Quantas vezes perdes a paciência e gritas comigo? O teu gritar também me exaspera, me angustia, me amedronta. Não é a tua voz que eu não entendo, é o tom que você emprega à da tua voz, que me deixa confuso. Nesse momento, minha mente entra em parafuso e perco a noção do que devo fazer.Por favor, multiplique a tua paciência comigo, ajude-me nesse meu caminhar, que ora pode ser de um jeito, ora pode ser de outro. Mas, eu não quero parar de caminhar. Quero compartilhar esse caminhar contigo, quero ouvir a tua voz soar harmoniosa, direcionando- me, e quero responder as tuas perguntas com equilíbrio. Nessa ocasião, não importa em que posição eu esteja na roda gigante, ou na montanha russa, porque saberei que tu estarás lá, do meu lado, ajudando-me, completando- me, respeitando- me, aceitando-me como eu sou e estou.